Vinagrete 19.10.04 – A morte de Freitas

Deu-me para lembrar agora com mais força um velho episódio. Claro que não vou escrever um obituário de Freitas do Amaral, embora talvez quisesse fazê-lo.

Houve um equívoco de início: como foi líder e fundador do partido mais à direita da democracia, havia quem quisesse que ele fosse quase de extrema-direita. E, no entanto, tanto ele como Amaro da Costa, nitidamente à esquerda desses desejos, diziam estar rigorosamente ao centro. Amaro até seria um dos criadores mais influentes da UGT, talvez com o apoio dos alemães, embora fosse o PS (também apoiado por alemães mais à esquerda) a dominar os sindicatos portugueses fora da órbita do PCP. E andava sempre ao colo com Lech Walesa, para dar uma mais à esquerda e sindicalista.

Freitas do Amaral, Record

Dizia-se mesmo que no CDS, Freitas era uma espécie de Rainha de Inglaterra, para sublinhar um Poder talvez maior de Amaro da Costa.

A primeira coligação que fizeram, antes da AD (embora se devessem sentir mais confortáveis nesta última por diversas razões) foi com o PS. Mais novo, dizia-se admirador de Giscard d’Estaing, embora sem deixar de ser assistente de Marcello Caetano. Na grande disputa eleitoral da Presidência, com Mário Soares, em 1985-86, correram uns zunzuns sobre o seu medo físico dos gorilas, e de olhar para o outro lado quando eles batiam em alguém na Faculdade de Direito (ao contrário de outros professores mais intervencionistas).

Há dias, a líder do CDS, quase sem segurança, teria sido mal tratada fisicamente em Coimbra. No tempo de Freitas, o CDS precisava de uma segurança especial, porque não o queriam deixar existir, à pancada

Eu próprio beneficiei dessa segurança, quando Freitas mandou alguém atrás de mim, estava eu apenas a fazer-lhe a cobertura de um comício em terras comunistas. Não foi apenas escritor, mas casou com uma escritora, Maria Roma (Salgado de apelido verdadeiro), uma sintrense irmã de amigos e colegas meus.

Enfrentou a morte como a vida: sem dramas, solitário, com os seus valores de sempre.

Ainda hoje me pergunto, quando acho ter um voto sociologicamente inteligente (sempre pronto a mudar em função das conjunturas), porque terá sido que a única vez que votei no CDS foi quando estava a ser liderado por uma pessoa de quem me sentia mais próximo (Francisco Lucas Pires), quando era de Freitas a minha maior proximidade política. Enfim, ele foi um gigante incompreendido – até por mim.

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