Praias da Nazaré: o típico mais ex-típico

Fotografia de prof2000.pt

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Bem sei que o antigo Regime designou a aldeia de Monsanto como a mais portuguesa de Portugal. Mas o mito do típico para apresentar aos estrangeiros, como um Galo de Barcelos feito povoação, era a Nazaré. E t\ao típico foi apresentado, tanta foi a promoção internacional, que figuras como como Stanley Kubrick ou Cartier-Bresson documentaram, em fotografia, o dia-a-dia do povo nazareno.

Povo de pescadores, em águas ásperas e sem defesas (o Porto de Abrigo, feito por iniciativa de Mário Soares, que assim se tornou um Santo para aquela gente, foi inaugurado só em 1983, e as obras começaram em 1979), apresentava as suas mulheres vestidas com 7 saias, e os homens de camisas de flanelas aos quadrados e barretes pretos. Tudo ‘very tipical’. Na realidade, não consegui nenhuma explicação cabal para esta forma de vestir. Na Wikipedia, admite-se que as 7 saias fossem usadas pelas mulheres, quando em dias de mares mais alterados, iam para a praia esperar os seus homens (maridos, namorados, filhos, irmãos, primos, amigos), e sentadas na areia, usavam as primeiras saias para

Fotografia de patiodovale.com

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cobrirem do frio a parte de cima dos corpos. Já as vestimentas masculinas se mostravam adequadas à profissão (pescadores) dos homens e ao tempo da terra.

A vila da Nazaré só usa este nome oficialmente desde 1912. De resto, o seu espaço urbano aglutina 3 antigos povoados: Pederneira, Sítio da Nazaré (o do milagre de D. Fuas Roupinho) e Praia da Nazaré (a captar veraneantes sobretudo já no Século XX, e ali pelas redondezas), para além dos novos bairros da segunda metade do século XX, como a Urbisol ou o Rio Novo.

O nome da Nazaré parece provir da imagem de Nª Senhora, trazida da Galileia, e que ali chegou em 711, trazida por um Rei cristão que perdera uma batalha com os mouros, mais um frade que o acompanhava. Era realmente uma Nª Senhora da Nazaré, lá mesmo da Galileia. Em 1377, o Rei D. Fernando (1367-83), devido

Sítio, fotografia de portugalvirtual.pt

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à significativa afluência de peregrinos, mandou construir, perto da capela, uma igreja, para a qual foi transferida a imagem de Nossa Senhora da Nazaré da Galileia.

Conta a Lenda da Nazaré que ao nascer do dia 14 de Setembro de 1182, D. Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós, caçava junto ao litoral, envolto por um denso nevoeiro, perto das suas terras, quando avistou um veado que de imediato começou a perseguir. O veado dirigiu-se para o cimo de uma falésia. Quando se deu conta de estar no topo da falésia, à beira do precipício, em perigo de morte, reconheceu o local. Estava mesmo ao lado de uma gruta onde se venerava a imagem de Nossa Senhora com o Menino (a tal que já tinha sido nenerada na Galileia, e para ali viera em 711). Rogou então, em voz alta: Senhora, Valei-me!. De imediato, miraculosamente, o cavalo estacou, fincando as patas no penedo rochoso suspenso sobre o vazio, o Bico do Milagre, salvando-se assim o cavaleiro e a sua montada da morte certa que adviria de uma queda de mais de cem metros. E cá temos o Milagre, que ainda se conta hoje com igual comoção, lá para cima, no chamado Sítio da Nazaré.

O município, e a freguesia designaram-se Pederneira até 1912, ano em que, por lei, o topónimo foi alterado para Nazaré . O

Marginal, fotografia de idealista.pt

Marginal, fotografia de idealista.pt

antigo concelho da Pederneira teve foral, em 1514, dado por D. Manuel I, e esteve integrado nos coutos de Alcobaça.

Ao longo do século XX, a Nazaré evoluiu progressivamente de uma vila piscatória para uma vila dedicada quase inteiramente ao turismo (é até difícil – não digo impossível, porque já comi bem num restaurante da Marginal relativamente recente, o Mar Bravo – comer-se lá um peixe fresco e decente), tendo sido um dos primeiros pontos de interesse turístico internacional em Portugal. A indústria do turismo é hoje um dos principais empregadoras da vila.

De resto, é hoje impossível falar da Nazaré sem referir o recorde mundial da maior onda já surfada, de 30 metros, estabelecido por Garrett McNamara, na Praia do Norte, em Novembro de 2011. Porque na verdade hoje isto está mais na moda do que as 7 saias ou

Carapaus a secarem na praia, fotografia de mdjm-nazaré.blogspot.com (mdjm significa Museu Dr. Joaquim Manso)

Carapaus a secarem na praia, fotografia de mdjm-nazaré.blogspot.com (mdjm significa Museu Dr. Joaquim Manso)

as camisas de flanela aos quadrados. E o regime que nos anos 50 e 60 tanto promoveu internacionalmente a terra à volta desses símbolos, também mudou. A praia da terra, por outro lado, está demasiado urbana para ser apreciada por veraneantes portugueses. Serve mais para pôr lá a secar os carapaus laminados. Esses veraneantes mudaram-se para outras praias, a que em breve daremos atenção (Baleal, Stª Cruz, etc.) ou já demos (Foz do Arelho, São Martinho do Porto, Salgados).

De resto, o mar alterado, e com grandes ondas, serve sobretudo para os craques internacionais do surf, como McNapara, tornarem as suas ondas mundialmente conhecidas.

Ah, sim, e falta o anexim: «Na praia da Nazaré ninguém pode andar em pé». Cá para mim é pura rima, em significar mais. A não ser talvez como a cantiga, que pedia para a dançarina, talvez caída, mostrar como era por baixo das saias.

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