Praia da Granja: do grande comércio portuense à aristocracia nacional

Praia da Granja

Praia da Granja

Granja, o nome, bem do latim granum, que significa grão. A Praia da Granja fica no concelho de Vila Nova de Gaia, E não é uma praia qualquer.

Corria o ano de 1758, e os frades Crúzios, sediados no Mosteiro de Grijó, construíram uma Quinta. E a necessidade de cultivar essas terras para seu sustento esteve na origem do topónimo Granja – propriedade rústica de amanho, conjunto de dependências de uma propriedade agrícola.

Esta propriedade, junto ao mar, era também utilizada pelos Cónegos Regrantes do Patriarca St. Agostinho do Real Mosteiro de S. Salvador de Grijó, como estância de convalescença e de repouso, nas alturas de mais calor. E como eles próprios afirmavam, podiam assim ‘ir a ares’.

Cem anos mais tarde, já no século XIX, José Frutuoso Aires de Gouveia Osório, médico e politico português nascido no Porto,Granja 2 cidade de que foi Presidente da Câmara (1886-1887), adquiriu a Quinta aos frades, passando a ser um couto privado deste ilustre portuense. E passou a ser baptizada com o nome de Quinta dos Aires (mais conhecida depois por Quinta do Bispo).

Pela mão de Frutuoso Aires, no início da década de setenta do Séc. XIX, nasceu a Granja. Uma correnteza de casas para a família do abastado comerciante do Porto, e alguns lotes vendidos criteriosamente, constituíram o modo de dar vida a esta apreciada estância balnear. As sete casas edificadas inicialmente, pertenciam aos filhos de Frutuoso, e a sua construção deu origem à principal rua, a chamada Avenida da Granja.

Piscina da Granja

Piscina da Granja

A Granja tornou-se depois na mais aristocrática das praias do litoral português (segundo Ramalho Urtigão). A 7 de Junho de 1864, Vila Nova de Gaia e Lisboa ficam ligadas por via férrea, com a chegada do comboio ao lugar das Devesas, e com a posterior construção da Estação da Granja, dá-se o desenvolvimento desta estância balnear. A praia da Granja, a mais graciosa e asseada das estações balneares portuguesas, a praia por excelência elegante, nasceu após a passagem da linha férrea pelo sítio.

O ambiente que se vivia nesta praia do Norte de Portugal era de puro elitismo, tendo-se criado um mundo social e intelectual muito próprio, com uma forte identidade territorial.

Em 1890, o Grilo de Gaya, um jornal local descreve muito bem ambiente:

O fundador Frutuoso Aires, ex-presidente da Câmara do Porto e grande comerciante

O fundador Frutuoso Aires, ex-presidente da Câmara do Porto e grande comerciante

‘Têm chegado algumas famílias à praia da Granja, porém sempre as de costume: só fidalguias (…) Esta praia, talvez a mais bonita e saudável da nossa beira mar, torna-se tristonha sem alegria, porque muitos banhistas preferem andar quasi sós, não querendo gente de classe baixa que os estorvem’. A Granja tornou-se num local privilegiado e elegante: local de cavalgadas, de quermesses, dos torneios de ténis e de cricket , dos bailes e concertos, das tardes de chá e bridge…um local de príncipes e princesas, um local de conto de fadas.

Foi aqui que pela primeira vez em Portugal surgiu uma rua pedonal, ladeada de jardins e árvores e com passeios elegantemente desenhados. Um sítio diferente, um local paradisíaco que Ramalho Ortigão descreveu como estação balnear da alta sociedade portuguesa de fins do século XIX e princípios do século XX, que se encheu de luxuosas vivendas, que definem por si toda uma arte de saber viver bem e requintadamente, típica de certa belle époque.

Por esta elegante praia passaram e veranearam ilustres figuras: o rei D. Luís, a rainha Maria Pia e o infante D. Afonso, o rei D.Carlos e a rainha D.Amélia. E ainda, a nível mais intelectual, o ilustre Grupo dos Cinco, do qual faziam parte Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Antero de Quental, Guerra Granja 3Junqueiro e Eça de Queiróz. Mais famílias nobres do Porto, Lisboa e de todo o País. Os jornais de Lisboa e Porto referiam-se a esta praia como sendo ‘uma concha mimosa como a pétala de uma camélia; ninho feito de púrpura e perfumes’. Já no século XX, figuras publicas aqui passaram as suas férias de verão nas suas casas de família, entre as quais de destacam Francisco Sá Carneiro e Sophia de Mello Breyner. Os descendentes de Eça de Queiróz também aqui viveram, na casa onde morreu a sua mulher, Emilia de Castro Pamplona a 5 de Junho de 1934.

Ramalho Ortigão, num livro dedicado às Praias de Portugal, tem um texto sobre a Granja, em que descreve o seu ambiente social sofisticado (cheio de convivências, bridges, crickets, vida de clube, etc.), e também o urbano (chalés, cottages, etc), afirmando que logo na estação, o seu chefe, inquirido sobre se ‘a Granja estava’, respondeu: «Não senhor. Está em Matosinhos. Foram para lá todos, às corridas de cavalos, pelo comboio da manhã. Mas as senhoras voltam para jantar, no Expresso das sete horas».

Mas não foi só pela sua praia que este local ficou conhecido. Foi aqui que foi celebrado, a 7 de Setembro de 1876, o Pacto da Granja, em que surgiu um novo partido politico, o Partido Progressista, como resultado da junção do Partido Histórico e do Partido Reformista, liderado por Anselmo José Brancaamp como oposição ao Partido de Fontes Pereira de Melo, o poderoso Partido Regenerador. Inaugurou-se assim na Granja a segunda fase do rotativismo em Portugal, período de alternância politica entre os partidos, (…) Granja 4que proporcionou algum equilíbrio entre os sectores conservadores e os mais liberais e progressistas do País (que eram precisamente os da Granja).

A Granja ainda hoje é um local de veraneio, com as suas casas senhoriais e coloridos chalés de verão, mas o tempo foi apagando os resquícios aristocráticos e elitistas do passado. A beleza da sua praia mantém-se, as ondas do mar espreguiçam calmamente a sua espuma branca pelo areal fino e os rochedos do mar, e as memórias daquela época ainda se podem ouvir nas histórias dos mais velhos.

Para aceder à piscina da terra, era preciso desembolsar há una trinta e tal anos a módica quantia de 200 escudos, o que na década de 80 era uma exorbitância, comparada com os 50 escudos que custava a entrada na vizinha piscina de Espinho. Talvez fosse uma ténue tentativa para manter o espírito elitista do passado. Sophia de Mello Breyner fez da Granja a estrela de poemas e histórias.

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