Vinagrete 16.05.05

Os elogios implícitos da Europa a Centeno

Fotografia da TVI24

Fotografia da TVI24

As previsões de Primavera para Portugal, agora apresentadas (divulgadas 3ª-feira), e que melhoram substancialmente relativamente às anteriores, surgem com boas notícias, mas em tom carrancudo. Alguns, salientam as boas notícias. Outros, com medo do que isso possa significar de bom para o Governo de António Costa e para o seu ministro das Finanças, Mário Centeno, preferem sublinhar apenas o tom carrancudo.

Prevêem agora um défice público dentro do ano de 2016, e ao abrigo do actual Orçamento de Estado, de 2,7% (as de Inverno apontavam para 3,4 pontos). Claro que o Executivo, mais optimista, insiste em 2,2%.

Mas de Moçambique, onde se encontra em viagem oficial, o Presidente social-democrata Marcelo Rebelo de Sousa fez chegar estas declarações agradáveis: «“Se for 2,7% é um número de que não me recordo há muito tempo em Portugal» e «Já há um ponto bom: é que quer o Governo português quer Bruxelas acham que fica abaixo dos 3%».

Portanto, a nota mais negativa das previsões é um 0,5% de défice estrutural. Mas a quem interessa realmente este dado, num momento em que a própria UE quer acabar com o conceito de défice estrutural?

Claro que tendo em conta o horror ao diálogo e as constantes falhas de números e previsões do anterior Executivo, o de Passos Coelho, até poderemos considerar explicável esta parte do relatório da CE: «incertezas em torno das projecções macroeconómicas, possíveis derrapagens na despesa e a potencial falta de acordo quanto a medidas de consolidação adicionais em 2016 e 2017…»

Pelos vistos, Portugal entrou finalmente no bom caminho, mesmo que o reconhecimento europeu disso tenha de ser apenas implícito, e não explícito. Porque o relatório insiste na sua: é preciso aplicar mais medidas de austeridade. Só que a austeridade já só é pedida porque sim, porque eles são burocratas de formação duvidosa (que certamente não merecem os ordenados exagerados pagos pelos contribuintes que eles querem sujeitar à austeridade só porque sim).

Manuela Ferreira Leite fez a propósito uma declaração ao diário i, que os eurocratas não devem ler mas deviam fazê-lo: «A austeridade fez de Portugal um país com pouca gente e infeliz». Mas claro que esta mesma Manuela Ferreira Leite foi aquela que acabou com o imposto sucessório, na senda de estudos de governos anteriores, e ao arrepio do excesso de impostos decididos pelo Executivo de Passos, ou até do que se faz por essa Europa fora onde a Direita está no Poder. Passos e os seus adoram impostos, mais taxas e taxinhas (como dizia o outro, que lá andou e o sabe bem).

Ou será que eles têm simplesmente o terror de que se perceba depressa o quanto errados andaram? É certamente essa a razão de gente ligada ao anterior Executivo se mostrar alarmada com a possibilidade de o Orçamento de Estado para 2016 não poder ser rigorosamente cumprido – quando o anterior Executivo nunca cumpriu nenhum dos seus orçamentos de Estado e sempre precisou de rectificativos. Ou talvez seja apenas aquela coisa de não suportarmos nos outros os nossos próprios erros.

De resto, se for mesmo necessário um orçamento rectificativo, já estamos tão habituados que nem vamos estranhar.

Fotografia de pbs.org

Fotografia de pbs.org

Entretanto, aqui deixo estas frases da visita que Paul Krugman fez agora a Portugal, mesmo sabendo que elas não adiantam para espíritos menos abertos à realidade: «A austeridade esmagou o crescimento económico. As provas são hoje claras. Foi como se estivessem a bater com o martelo na cabeça das pessoas».

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