Vinagrete 16.06.27

A democracia espanhola tem de negociar para sair da crise

 

Fotografia do DN

Fotografia do DN

Mariano Rajoy parece tão alvar como os portugueses que achavam que por uma candidatura eleitoral ter mais votos estava mandatada para formar um Governo, mesmo sem apoio parlamentar. Desvarios que vêm de mentalidades pouco democráticas (e o PP, que começou como uma federação de partidos locais promovida por Fraga Iribarne, acoitou de facto os franquistas da época). Mas se até nós, antes de Marcelo e Costa, passamos por algo semelhante…

Dizem-me agora que Rajoy, ao pé de Aznar, que não tem escondido estar contra ele apesar de ter promovido a sua sucessão, é um grande democrata.

Talvez. Aznar teve sorte na vida. Perdeu sucessivas eleições com González, mantendo-se no Poder. Finalmente, em 1996, ganhou por uma margem tão escassa, que os nacionalistas ofereceram os seus votos a González para ser o PSOE a formar Governo. Nessa altura, Aznar, que no dia a seguir a quaisquer eleições por si perdidas ia ao Parlamento pedir muito alto ‘vayase Sr. González’, achando que o voto e a democracia não contavam – acabou por ver-se a formar um Executivo apoiado nos bastidores por Felipe González (que não quis continuar para lá dos seus 13 anos e pico de funções). Em 2000, um atentado da ETA, em plana campanha eleitoral, deu maioria absoluta ao seu partido (perante um PS esmagado pela moderação), e fez dele uma espécie de Estadista – cuja aura se estendeu à mulher, feita presidente da Câmara de Madrid.

Mas e agora? Agora parecem ser precisas caras novas e muita negociação. Já nas eleições anteriores o PP teria formado

Soraya Saenz de Santamaria, fotografia de ellahoy.es

Soraya Saenz de Santamaria, fotografia de ellahoy.es

Governo, com o afastamento de Rajoy – que se mostra agarrado ao Poder, num partido pouco habituado a tomar a iniciativa de substituir líderes, e com vários dirigentes a precisarem dele para não serem presos em casos de corrupção (para já não falar no escândalo conspirativo em que foi apanhado o ministro do Interior, a ‘fabricar’ indícios contra a Catalunha).

Ora a Catalunha pode ser a base do futuro Governo espanhol. É preciso perceber que os radicalismos independentistas do momento foram promovidos por Rajoy, quando se recusou a discutir só a questão do financiamento, sabendo que os catalães pretendiam diminuir a quantidade de impostos que enviam para o resto do Estado (e de que o País Basco está isento, talvez pelo receio que inspira o terrorismo). Ora

Fotografia de huffingtonpost.es

Fotografia de huffingtonpost.es

Espanha precisa de um primeiro-ministro que não incentive o terrorismo às claras, como está a fazer Rajoy, certamente para se fechar num combate guerreiro e sem negociações a esse terrorismo. E precisa mais da riqueza da Catalunha do que vice-versa. E precisa também de caras novas. O PSOE já está a caminho, com aquela andaluza chamada Susana Diez, que ainda por cima parece ter o apoio de Gonzalez. O Rei, apesar de mais popular, já passou a pasta ao filho. Rajoy, pelas declarações posteriores aos resultados eleitorais, não parece tão disposto a sair. Mas já há comentadores a pedirem abertamente nos jornais que saia (casos de Luís Maria Ansón, Santos Juliá ou Fernando Jauregui). E consta até haver no PP de Rajoy figuras prontas a avançarem: Alberto Núñez Feijóo (bem visto por Rajoy, afastado dos

Fotografia da RTVE

Fotografia da RTVE

escândalos de corrupção e com boa gestão na Galiza), Soraya Sáenz de Santamaría (flamante vice-presidenta, poderosa, trabalhadora, e ambiciosa, mas acusada de gerir mal as relações com a Imprensa) e María Dolores de Cospedal (secretária-geral do PP, ex-governadora de Castilla na Mancha, que é agora uma incógnita porque se sacrificou retirando-se dos holofotes, mas contará com apoio de Rajoy). Veremos o que passa, mas julgo serem precisas 3 coisas: muita negociação, renovação de caras, e negociação com a Catalunha.

O PODEMOS, surgido em 2014 do nada, vale muito menos do que parecia, e nada tem a ver com o nosso BE – apesar de tudo com mais história e seriedade na vida política nacional.

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