Vinagrete 26.04.07 – Trampas entrevistado

(Continuação)

— Então continua tudo nos seus calces – sustentou Trampas, aliviado – E você, quando acabar a entrevista, volta para o seu jornal, a escrever, como combinado entre nós.

— Exactamente! – apressou-se a concordar John Smith, feliz por se considerar assim necessário. — E quando acabará a guerra entre os EUA e o Irão?

         — Você sabe?

         — Não. Por isso, lhe estou a perguntar. – E querendo mostrar-se mais útil: — Para saber eu, e todo o povo.

         — Também, não sei. O que sei, é que aqueles iranianos assacanados são mais complicados do que os venezuelanos. Estes, talvez por serem mais de perto, embora imigrantes, ao menos a gente percebe-os melhor. Os de lá, não se percebem.  Quer dizer, eu tenho comigo a tropa e os melhores armamentos, a uma ordem minha e eles ficam a viver num inferno, posso fazê-los voltar é Idade da Pedra como se não fosse nada, e eu é que devia ter medo deles? Oiça cá: quer mesmo saber quando acaba esta guerra?

         — Quero.

         — Vá perguntar aos israelitas.

         — Pensei que, ao menos, houvesse um motivo diferente para os EUA entrarem na guerra.

         — Ele haver, há. Eu é que não posso dizer-lhe já, e você também não quer saber.

         — Quero, quero. Se lhe perguntei, é porque quero saber.

         — Estranho – Trampas fez ar de quem estranhava o interesse do outro. – Mesmo sabendo que eu estou sempre a mudar, e que não tenho posição nenhuma?!…

         — É só para calar os que andem por aí a dizer que não tem posição nenhuma, e que está sempre a mudar…

         — Muito bem, terá que perguntar-lhes a eles, aos israelitas. – Logo, assumindo um tom mais retórico, como se estivesse a falar de uma coisa normal e comezinha: — Uma coisa sei, e já lhes disse. Se querem matar e assassinar, pois muito bem, façam-no. Mas depressa, como eu. Se dão tempo a toda a gente de tomar consciência, torna-se impossível apoiá-los. É que mesmo a minha base de apoio mais próxima começa a embirrar. Se até os judeus embirram…

         — O homem é mesmo insu

         — O homem é um querido. – Apressou-se a cortar Trampas, com imenso prazer por o contrariar. E mais triste: – O problema é termos de satisfazer pessoas difíceis que não sabemos como satisfazer. Como, por exemplo, os que já não querem votar em mim.

         Depois, com os fígados revoltados: — Se estão a pensar que me demito, estão muito enganados. – E a ribombar trovões: — Se quiserem aldrabar eleições, tudo bem, que já conheço os cantos à casa, e também me apetece ficar. – Mais suavemente, quase num murmúrio: — A quantidade de gente que, como você, para ficar nos seus lugares, precisa de mim. Alguns hão-de me apoiar, não é verdade?

         — Está claro. Tudo o que VEXA precisar, Sr. Presidente. – E esforçando-se por alterar o rumo da conversa: — Diga-me lá uma coisa, para ficar clara para mim, e para o público. Os EUA acabam ou não a Guerra contra o irão, e quando?

         — Os mercados estão entre o seu público?

         — Isso é evidente. Mesmo que não estivessem, que estão, bastava serem palavras suas para darem atenção.

         — É verdade! – Comentou Trampas sonhador e satisfeito, dando um sorvo prolongado na sua bebida. – Posso dizer o que quiser, e quanto        quiser, que estão sempre atentos. É uma das coisas que me agrada neste lugar.

         — Também estão atentos ao que dizem os restantes dirigentes e porta-vozes.

         — Será o motivo de não apreciar muitos deles, sobretudo os mais cobardolas.Por exemplo, diverte-me imenso, pensar que o secretário-geral da NATO, o sabujo que à minha frente está sempre de acordo comigo. Imagina o ordenado diminuído, cada vez que eu falo em sair da NATO. Os mercados são constituídos por crianças como eu, e imaginar que os inimigos acham que estou a ficar senil como o meu paizinho, por crianças, que só querem tomar umaposição rápida, e se tiverem de perder dinheiro, perderem o mínimo possível. O John, que adora embirrar com a minha maneira mimada de falar, se calhar preferia que eu clamasse como os porta-vozes do Hezbolah e do Hamas.

         — Não, não preferia…

— Mas vamos ao que interessa. – Pondo-se repentinamente sério, endireitou-se no seu sofá: — Portanto, os mercados estão atentos. Agora, há que ser rápido. Se o regime mudar, pode ser arriscado, mas eu fico muito bem visto pelo eleitorado. Duas coisas que já fiz ver bem ao nosso chefe dos militares, que também foi nomeado por mim.

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