Vinagrete 26.04.04 – Trampas entrevistado

         (Continuação)

— Mas VEXA não preferia dizer coisas acertadas? – perguntou John Smith, com honesta curiosidade. – E ficar conhecido precisamente por isso?

         — Para quê?! – inquiriu Trampas, a tentar adivinhar as intenções do outro. – Para ter de dizer bem dos meus antecessores, e quem sabe haver quem me acuse de ter definido uma posição, minha ou dos EUA?!

         — Talvez…

         — Ai, que já não temos director novamente – disse, crítico, Trampas. – Ou você não sabe que, como todos os outros, não foi nomeado para pensar, mas apenas para executar.

         E logo muito convencido, com a sua voz mimada.  – Para pensar, estou cá eu, que sou muito esperto.

         John apressou-se a aquiescer. Sim, sim, VEXA, SR. PRESIDENte.

         — Então veja lá! – disse-lhe Trampas, subitamente reconciliado, mas sem querer deixar aquilo passar em claro. – não escangalhe a nomeação, por uma coisinha de nada. Tanto mais que eu preciso de si, para noticiar a tal coisita, a mudança do nome da cidade, como se a tivesse ouvido de outro qualquer. E será mesmo verdade, se não tiver grande oposição. Sem oposição, eu mudo o nome de tudo, para o meu. Assim, se vier alguém depois que ache demais, e desatar a mudar tudo outra vez, o meu nome deverá ficar em algum lugar, insuspeito. Espertice, hem?

         — Sim, grande espertice. – Apressou-se a concordar John Smith, mal Trampas se calou um bocadinho, fazendo com a cara um ar muito esperto. – É uma grande espertice.

         — Enfim, isso são coisas que se esperam de mim, não de si.  – Considerou Trampas em tom retórico.

         — Isso é bem verdade! – confiou Smith com admiração. E então, ainda com curiosidade, inquiriu-o: — O que vai VEXA, Sr. Presidente, fazer com a NATO?

         — Não sabe? – perguntou-lhe Trampas, indeciso. – Nem eu. O Putin é que parece saber. Mas sabe mais do que eu, das minhas intenções. Eu disse-lhe o mesmo que a si.

         Depois, num ar mais íntimo, de quem estava disposto a fazer confidências, adiantou: — O Zelensky é que me irrita supinamente. Com aquele ar estúpido que ele tem, anda com a mania que é mais esperto, só por lhe darem imensa atenção.

         E ainda íntimo e confidente, baixando a voz, disse~lhe ao ouvido: — Está autorizado a inventar um motivo qualquer, desde que não dêem com o verdadeiro. Mas sempre lhe digo que o verdadeiro é superior a mim, e que até me arrisco a ser incompreendido pelo meu eleitorado que, vá lá a gente perceber porquê, também gosta dele.

— Sim, é incompreensível. – Concordou imediatamente John Smith.

         E ao ver que escolhera tão bem para a nomeação uma autêntica alma gémea, Trampas sentiu~se mais solto, e acrescentou: — Claro, que isto tem por vezes implicações. Uma vez por outra, muito raramente, engano-me ao avaliar as pessoas. Como se vê pelas recentes demissões.

         — Um horror.

— Diz bem – considerou ele – Eu é que não saio de maneira nenhuma. Fui eleito, e agora fico.

— Espero que haja alguma forma de sair – murmurou John Smith.

— O que é que foi? – Retrocou Trampas desabrido, sem acreditar no que ouvira.

— Nada, VEXA, Sr. Presidente, SR. PRESIDENTE.

— Ah, então nada – retorquiu Trampas, mostrando-se ainda ligeiramente insatisfeito – nada mesmo. E ainda temos director?

— Pois claro!

— Claro.

(Continua)

Deixe um comentário