Vinagrete 26.04.02 – Só mais uma

— Só mais uma pergunta – pediu John Smith, com ar encarecido.

         Trampas, apreciando deveras o ar do seu interlocutor, apressou-se a concordar, estendendo-se com prazer no seu cadeirão.

         — Ora diga lá o que ainda o preocupa.

         E John disse, afastando com a mão a ideia de preocupação:

         — Não é que esteja preocupado. Mas sempre gostava de saber porque VEXA fala tanto.

         Visivelmente agradado com o tratamento de EXA, Trampas contestou:

         — Acha, então, que eu falo muito…

         E ajuntou, com um sorriso maldoso:

         — …talvez, demasiado.

         — Demasiado não – desmentiu-o John Smith, com a intenção clara de não o melindrar. – Só muito.

         — A sério?! Acha muito?!

         — Acho um bocadinho muito. – E muito apaziguador: — só um bocadinho.

         — Nem imagina o trabalhão que isso me dá!

         — Dá-lhe muito trabalho?!

         — Pois dá! – Depois esclareceu: — A primeira razão, a inicial, era para não ter de ouvir os outros. Nem chegavam a poder falar, porque eu não me calava. Mesmo as minhas nomeações, ficava log esclarecido, não eram apenas para desempenhar funções, mas também para me ouvirem. Daí a aparecerem todos sempre alinhados, e a ouvirem-me com toda a atenção. Nisso, ninguém os apanha desprevenidos. Até por ser a única coisa em que sou exigente.

         E logo, para deixar tudo bem esclarecidinho: — Você, por exemplo, além das suas funções de director, que me interessam muito pouco como as desempenhará, terá de ouvir-me com o máximo de atenção, para depois as noticiar como deve ser.

         — O Vance, por exemplo, o que é que tem de fazer?

         — Ouvir-me sempre ou, para usar as suas palavras, demasiado.

         — E o Rubio?

         —  Quase sempre, ou quase demasiado. – E visivelmente bem disposto, recostando-se no sofá, de perna traçada: — Os restantes membros do gabinete, os ministros, têm…

         — Eu não falei em demasias. – E num tom acusador: — Foi Vexa.

         — Estou a borrifar-me para as demasias. Que não seja por elas que ficamos sem director. – comentou Trampas, agradado com as cerimónias do interlocutor, um sorriso escarninho, e a voz mimalhada: — Eu quero é ser o único a falar, e dizer coisas tão contraditórias, que não possam afirmar uma posição minha, baseados nas palavras que vou soltando. É ou não uma enorme esperteza? Estava a dizer que os restantes membros do Governo só têm de ouvir o que digo, com muita atenção. O mesmo que você.

(Continua)

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