— Só mais uma pergunta – pediu John Smith, com ar encarecido.
Trampas, apreciando deveras o ar do seu interlocutor, apressou-se a concordar, estendendo-se com prazer no seu cadeirão.
— Ora diga lá o que ainda o preocupa.
E John disse, afastando com a mão a ideia de preocupação:
— Não é que esteja preocupado. Mas sempre gostava de saber porque VEXA fala tanto.
Visivelmente agradado com o tratamento de EXA, Trampas contestou:
— Acha, então, que eu falo muito…
E ajuntou, com um sorriso maldoso:
— …talvez, demasiado.
— Demasiado não – desmentiu-o John Smith, com a intenção clara de não o melindrar. – Só muito.
— A sério?! Acha muito?!
— Acho um bocadinho muito. – E muito apaziguador: — só um bocadinho.
— Nem imagina o trabalhão que isso me dá!
— Dá-lhe muito trabalho?!
— Pois dá! – Depois esclareceu: — A primeira razão, a inicial, era para não ter de ouvir os outros. Nem chegavam a poder falar, porque eu não me calava. Mesmo as minhas nomeações, ficava log esclarecido, não eram apenas para desempenhar funções, mas também para me ouvirem. Daí a aparecerem todos sempre alinhados, e a ouvirem-me com toda a atenção. Nisso, ninguém os apanha desprevenidos. Até por ser a única coisa em que sou exigente.
E logo, para deixar tudo bem esclarecidinho: — Você, por exemplo, além das suas funções de director, que me interessam muito pouco como as desempenhará, terá de ouvir-me com o máximo de atenção, para depois as noticiar como deve ser.
— O Vance, por exemplo, o que é que tem de fazer?
— Ouvir-me sempre ou, para usar as suas palavras, demasiado.
— E o Rubio?
— Quase sempre, ou quase demasiado. – E visivelmente bem disposto, recostando-se no sofá, de perna traçada: — Os restantes membros do gabinete, os ministros, têm…
— Eu não falei em demasias. – E num tom acusador: — Foi Vexa.
— Estou a borrifar-me para as demasias. Que não seja por elas que ficamos sem director. – comentou Trampas, agradado com as cerimónias do interlocutor, um sorriso escarninho, e a voz mimalhada: — Eu quero é ser o único a falar, e dizer coisas tão contraditórias, que não possam afirmar uma posição minha, baseados nas palavras que vou soltando. É ou não uma enorme esperteza? Estava a dizer que os restantes membros do Governo só têm de ouvir o que digo, com muita atenção. O mesmo que você.
(Continua)
´´´