(Continuação)
Esticando uma perna, para a cruzar sobre a outra, com prazer, Trampas prosseguiu:
— Portanto, V. quer fazer-me uma entrevista sobre a Guerra, não é?
— Pode ser… – respondeu o outro, indeciso.
— Pode ser não, é. – atirou Trampas já irritado. – Afinal, V. pediu-me esta entrevista, sobre a Guerra.
— Então é! – apressou-se a concordar o jornalista.
— Pois seja a Guerra. – E já novamente bem disposto, começou: — Avisei o Irão. Nós somos capazes de levar os nossos rapazes para a Ilha de Kharg, onde eles têm o petróleo. E não é a brincar. Não pensem lá que é a brincar.
— Se falasse sempre a sério – interrompeu-o John Smith – como era nosso costume, já eles não pensavam que era a brincar.
— Ai, que, finalmente, V. não vai ser director de nada. – Trampas estava visivelmente zangado.
— Desculpe lá, Sr. Presidente.
— Diga lá outra vez isso: Sr. Presidente – declarou Trampas, mostrando-se ainda levemente agastado. – No fundo, é isso que eu gosto de ser.
— Sr. Presidente, Sr. Presidente, Sr. Presi….
— Mais alto.
— SR. PRESIDENTE.
Uma criada, que ia a passar por fora, assomou à porta, para perguntar:
— Chamou?
— Não! – retorquiu Trampas, com impaciência – ou pensava que ia chamá-la assim?!
E logo, reconciliado com John, continuou: — É director outra vez.
— Só dizia aquilo do sempre a sério, como os seus antecessores, para ser reconhecido também como uma pessoa só de uma palavra…
— Ai, que não temos novamente director do jornal. – Atalhou Trampas. – Quer então que eu seja conhecido como pessoa de uma só palavra, e que fale sempre verdade. E para quê? Para dizer bem dos meus antecessores, e para ter de falar na merda da realidade nua e crua como ela é, em vez de a pintar com cores melhores, proporcionadas por mim próprio, como os meus eleitores gostam e querem?
E John Smith muito contrito: Desculpe-me, Sr. Presidente. Tem razão, SR. PRESIDENTE.
(Continua)