Trampas agarrou por um braço John Smith, na sua casa de Mar a Lago, onde viera passar o fim-de-semana, para o conduzir suavemente ao seu gabinete, e sentá-lo num sofá à sua frente. E depois, remexendo vagamente nas garrafas que mandara pôr antecipadamente ali. Na mesinha à sua direita, informou-o:
— Vou servir-lhe aqui um whisky daqueles que é só para mim, John, e que nunca dou às visitas, nem a esses jornalistas maçadores, que tanto há por aí.
E quando serviu generosamente dois copos, dando um ao seu interlocutor, explicou:
— Chamei-o aqui, John, para lhe conceder a entrevista que me tinha sido pedida pelo seu director, que tem a mania de fazer perguntas embaraçosas. Evidentemente, amigo John, espero que seja menos embaraçoso do que a cambada dos seus colegas.
Então, fazendo cara de quem lhe acabara de ocorrer uma inspiração, uma autêntica epifania, como se estivesse em transe, acrescentou:
— Ò amigo John, e se fosse você para director, em vez do estupor que lá está?
— O estupor, de facto, arrisca-se a sair. O proprietário até já lho disse, e ele anda nervosíssimo. Ouvi, que estava à espera desta entrevista, para ficar.
— Então está decidido, amigo John. Eu não dou a ele esta entrevista, e o meu amigo vai ser o futuro director.
— Eu?! Mas sou só estagiário!
E como quem acabou de tomar uma decisão.
— Isso não interessa. Tanto mais, amigo John, que sou igualmente amigo do proprietário. Já estava decidido que ele sai do lugar. E eu não lhe dou a ele a entrevista, e se o proprietário não o nomear director, o seu jornal fica sem acesso nenhum a esta administração. E é uma boa estreia para o lugar: uma das raríssimas entrevistas minhas.
— Isso é –- confirmou o jornalista com ar sonhador, enquanto dava um golo largo, naquele whisky delicioso.
— Está, portanto, decidido – disse Trampas, dando também um golo no seu whisky: — Você é o director do jornal, e eu concedo-lhe uma das minhass raríssimas entrevistas.
(continua