Vinagrete 18.01.16 – Outro Presidente nada democrata

Longe de mim querer contrariar as expectativas de quem espera do actual Presidente de Angola muita coisa, a começar pelo desmantelamento da corrupção instalada por José Eduardo dos Santos para benefício de familiares e próximos.

Lourenço e Costa, vozdeangola.com

Mas sempre tive as minhas dúvidas quanto à verdadeira atitude democrática do novo Presidente de Angola, João Lourenço. Pois essas dúvidas foram transformadas em certezas por ele próprio, numa conferência de imprensa que deu em Luanda, suponho que a primeira depois da sua eleição (e de Angola, desde há muitos anos, impensável no tempo de autoritarismos de José Eduardo dos Santos), nos 100 dias de mandato. Ao criticar a investigação ao ex-ministro angolano Manuel Vivente (que agora parece ajudar muito o Presidente a combater os ‘santianos’, mostrando não conhecer o cheiro do dono), Lourenço criticou Portugal e a Justiça portuguesa. E disse que Angola se sente ofendida com tal investigação. Disse mais: que Portugal a explicava, por falta de confiança na Justiça angolana. E há uma ameaça: impedir ou limitar importações de Portugal.

Claro que a falta de confiança deve existir, e mais ainda depois destas declarações de Lourenço. De resto, uma democracia, desde a Revolução Francesa, vive da divisão de poderes, e de o Executivo não dar ordens ao Legislativo – como bem se vê agora nos EUA, onde até Trump sua as estopinhas com a Justiça de lá (olha se Lourenço percebesse o que é suar essas estopinhas…). E ninguém em Portugal lhe pode ter dado tal explicação, nem mesmo a própria Justiça (apesar de também termos todas as razões para a falta de confiança). Mas valerá a pena explicar o que é a divisão de poderes da democracia (e que não vale a pena retaliar sobre o Executivo, apesar de conseguir com isso algumas achegas locais sem verdadeira influência, graças a Deus; porque só o deixar testemunho de uma atitude já é bem testemunho de uma atitude), a quem ainda anda tão longe disso?

Talvez Lourenço tenha conseguido fazer do Governo Costa, em relação a Luanda, uma espécie de Executivo do PSD, sempre ‘agachado’ ao MPLA – talvez à espera de compensações (o que é ainda pior). Talvez o leve assim a continuar a não divulgar o parecer da Procuradoria sobre a imunidade de Vicente. Mas conseguiu que os jornais nacionais, ou alguns, acabassem a divulgar esse parecer: Manuel Vicente pode mesmo ser julgado em Portugal, e levar com o incómodo mandado de detenção internacional que tanto o preocupa – e ele e ao seu Presidente que tanto gosta do pequeno.

Deixe um comentário